Alex Régis 

PIMENTA – O segundo tempero mais consumido do mundo tem propriedades farmacológicas comprovadas

22/03/2009 – Tribuna do Norte
Isaac Ribeiro – Repórter

A pimenta é radicalmente capaz de despertar amor e ódio nas pessoas com apenas uma simples pitada. Há os que a coloquem o tempero até mesmo num simples lanche; outros, fogem só em ouvir o nome. Mas o que nem todos sabem é que a pimenta vem sendo usada como medicamento desde a Antiguidade. E assim continua sendo… Há tempos estudada por cientistas, a pimenta tem eficácia comprovada no tratamento e prevenção de vários males; enxaqueca, depressão, gripe, pressão alta, obesidade, infecções, esquistossomose, reumatismo problemas cardíacos e até mesmo câncer. Isso tudo sem falar no sabor que dá aos pratos!
A nutricionista Letícia Castelo Branco esclarece que existe uma grande variedade de pimenta e que o teor de seus principais componentes — a piperina e a capsaicina, essa última principalmente, que difere umas das outras. Quanto mais forte e ardida, maior é quantidade de capsaicina.
“As pimentas também tem bioflavonóides, anti-oxidantes que retardam o envelhecimento, combatem os radicais livres e até certos tipos de cânceres, como o de próstata”, diz a nutricionista, baseada em estudos publicados pela comunidade científica internacional. “Teve um estudo realizado no Rio Grande do Sul que foi conclusivo com relação às propriedades anti-inflamatórias e analgésicas da pimenta.”
Apenas o sal está à frente da pimenta no uso como tempero no mundo. Segundo Letícia Castelo Branco, as mais consumidas no País são a malagueta, a do reino e a dedo de moça. Natural das Américas, ela era já cultivada pelos índios da Terra Brasilis quando as naus de Cabral aportaram por aqui. 
Até hoje existem algumas crendices populares relacionadas com a pimenta. Uma delas é a de que um jarro com a planta na frente de casa tem o poder de afastar o mau olhado e energias negativas. Suas principais características — cor vermelha, ardor, calor e prazer que provoca — criaram o estigma “maldito” que algumas culturas atribuem a ela. “Como tem também um lado sensual, há um certo preconceito também com relação a isso. Aliás, há preconceito com tudo o que é picante!”, comenta a chef Adriana Lucena, especialista no uso da especiaria.

Estudos científicos atestam os benefícios da pimenta
Poucas pessoas conhecem o poder da pimenta na cura e na prevenção de alguns males. O receio tolo pela ardência do condimento afasta a pessoa não só do sabor forte, mas também dos benefícios à saúde que ele gera. Se você é uma dessas pessoas, é bom saber que estudo recentes — e outros nem tão novos assim — atestam que a pimenta não é esse monstro todo que pintam e que não faz mal a quem tem hemorróidas, gastrite ou hipertensão. Tudo mito! Pelo contrário, ela pode ajudar até mesmo a atenuar os sintomas dessas doenças.
E sabe o que faz a pimenta ser boa para a nossa saúde? Justamente o ardor que ela provoca, ou mais especificamente as substâncias que causam essa sensação, a capsaicina e a piperina. Quando comemos algo apimentado, elas ativam receptores existentes em nossa língua e boca. Eles transmitem uma mensagem primitiva ao cérebro, algo como um alarme de incêndio. A resposta vem em forma de salivação, transpiração no rosto e nariz úmido. O objetivo dessas reações é refrescar o corpo. Alarme falso…
Só que, nessa operação, o organismo lança no sangue uma boa carga de endorfinas, responsáveis pela sensação de bem-estar e por aquela leve euforia. Quanto mais forte e ardida a pimenta for, mais endorfinas serão produzidas. Além disso, a capsaicina e a piperina também possuem suas propriedades curativas.
A endorfina em si é um analgésico natural muito forte fabricado pelo cérebro, e é por isso que dores de cabeça e enxaqueca somem ao se consumir pimenta. Já a capsaicina e a piperina estimulam as secreções presentes no estômago, melhorando a digestão, e ativam a circulação no órgão, o que contribui para o processo de cicatrização de úlceras, além de possuir ainda grande poder anti-flatulência. Comer pimenta também age contra o envelhecimento, devido à sua forte ação antioxidante.
Outra propriedade benéfica é a prevenção à obesidade. Refeições apimentadas estimulam a saciedade e também derretem estoques de gordura, além de aumentar a temperatura do corpo, fazendo com que o organismo gaste mais calorias.
A iguaria também libera noradrenalina e a adrenalina, que melhora o ânimo das pessoas com depressão. O poder cicatrizante da capsaicina também ajuda a curar hemorróidas, tanto que existem remédios, para esse fim, com pimenta em sua composição. Já o seu poder vasodilatador ajuda a regular a pressão arterial.
Cientistas da Universidade de Franca e da USP, ambas em São Paulo, sintetizaram e usaram a substância cubebina,  retirada de um tipo de pimenta  asiática, para curar a esquistossomose em cobaias de laboratório, e a doença foi eliminada. 
A pimenta caiena, vermelha e alongada, é tão poderosa que vem sendo apontada como capaz de cessar um ataque cardíaco em apenas 30 segundos, isso por conter elementos anticoagulantes, o que ajuda a desobstruir os vasos sanguíneos, ativando a circulação do sangue.
Para prevenir gripes e resfriados, recomenda-se ingerir uma malagueta pequena por dia, com se fosse uma pílula. O pó de pimenta colocado diretamente sobre a pele cura feridas abertas por ser antisséptico, analgésico e cicatrizante. As pessoas que sofrem com artrite, artrose e reumatismo podem aplicar compressas quentes ou frias nas articulações com uma mistura de 250g de pimenta vermelha socada misturada a um purê de inhame. 

Contra o câncer
Uma pesquisa realizada pelo Cedars–Sinai Medical Center, em Los Angeles, Estados Unidos, constatou ser a capsaicina responsável por uma espécie de suicídio entre as células cancerosas de próstata, levando à morte de 80% delas. Os cientistas usaram ratos geneticamente modificados, com células humanas com câncer no órgão. A eles foi administrado  uma dose de extrato de pimenta, equivalente a 400g de capsaicina, três vezes por semana, o que serviria para um homem de 91kg. Era o mesmo que comer de três a oito pimentas do tipo marupi, cultivada nos estados de Belém e Amazonas e uma das mais potentes.
A capsaicina poderá ser usada futuramente como componente básico de um remédio contra o câncer de próstata, segundo os cientistas, que alertam porém que não se deve, por isso, comer pimenta exageradamente, pois pode causar danos ao estômago.
Outros experimentos com a capsaicina  foram realizados na tentativa de acabar com tumores malignos no pâncreas, com êxito em 50% dos casos e sem afetar as outras células saudáveis e sem causar efeitos colaterais. Em Taiwan, cientistas conseguiram provocar a morte de células doentes do esôfago. 

Entrevista: Letícia Castelo Branco – Nutricionista
Existe alguma restrição com relação ao consumo de pimenta?

Ela é vasodilatadora, então ajuda a desfazer os coágulos sanguíneos. Quem tem problemas de hemorróidas não pode abusar da pimenta. Geralmente essas pessoas tem sangramento e pode levar a um agravamento da situação. Mas a  pimenta não causa hemorróida.

Você acha que ainda existe muito preconceito, receio, com a pimenta?
Existe. Mas as pessoas precisam saber realmente que a pimenta tem inúmeros benefícios. Ela é muito utilizada pela ayurvédica e seus adeptos tem um  índice muito menor de certas doenças crônico-degenerativas, porque já utilizam os benefícios da pimenta e o usam na forma de alimento. O ideal é que se utilize a pimenta fresca ou em pó e que se evite os molhos à base de pimenta, pois eles já tem outras substâncias que podem ter toxicidade e também um teor elevado de gorduras por causa ao que é adicionado ao molho e não pela pimenta em si. Outro mito da pimenta é que, por ser ácida, ela pode irritar o estômago. Mas só se for em teores elevados; se você consumir demais. Também tem estudos que dizem que a pimenta combate o helicobacter pylori, que em muitas pessoas é ele que provoca a gastrite. Tem pessoas que consomem pimenta que tem asia e queimação, mas ela não causa gastrite.

Você diria então que as pessoas deviam comer mais pimenta?
Com certeza, bem mais do que já consomem. Ela tem poder de analgésico, é anti-inflamatório e tem estudo que comprova o poder das substâncias da pimenta como anti-obesidade.  Tem fitoquímicos que inibem a resposta inflamatória. As pimentas vermelhas tem maior concentração dessa substância (capsaicina). Além disso, a pimenta também tem vitamina A, E e C, que são anti-oxidantes. Tem licopeno, que é presente também no tomate e é um pigmento que combate também o câncer de próstata, comprovado em pesquisas.

Quais são as mais consumidas no Brasil?
Pimenta-do-reio, a malagueta e a dedo de moça, que uma variação dela.

A culinária de alguns povos é bastante condimentada, apimentada mesmo. Eles teriam um índice menores das doenças que a pimenta previne?
Sim. O pessoal na Índia tem um índice menor dessas doenças crônico-degenerativas porque consome mais condimento, mais pimenta.

E há algo comprovado sobre os estudos da pimenta contra o câncer?
Existem muitos estudos comprovados na Holanda, na Inglaterra também, com relação ao câncer de próstata. Na Holanda, os estudos comprovaram, inclusive publicados, que ela atua nessa diminuição das células cancerígenas. E tem muitos estudos em desenvolvimento, mas que a comunidade científica que a resposta tem sido positiva.  

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